Você já deve sacar o som do Paulão.

Mas como surgiu o músico do também aumentativo Maranhão?

Resolvemos bater um papo na Nauro Machado pra conhecer um pouco do Paulo e, quem sabe, também ser apresentado ao Paulinho.

A praça estava escura, mas conversamos…

Paulão

Com uma família muito musical, desde criança o samba já marcava presença e o compasso no fundo do quintal da casa dos Linhares.

Tomando conta de todos os cômodos, a cadência das letras colocou Paulo em ressonância que, já fascinado pela literatura, começou a escrever aos 14 anos.

A Literatura nos permite estar nos diversos lugares ao mesmo tempo.

Nascido e criado no bairro do Cohatrac, situado na periferia de São Luís, mergulha sua escrita no cotidiano e busca perceber os diálogos presentes em todos os universos pelos quais passeia e que passam por ele.

Enxerga e tenta espremer e exprimir toda a beleza da palavra, valoriza o cuidado e respeito pela letra. Escreve enquanto observador, registrando o seu tempo e, acima de tudo, como ser que pensa.

Logo não demora para abrir sua conta no blogger no ano de 2007 e decide criar o blog Metalingüisticamente Falando, no qual é possível encontrar a gênese de suas músicas entre um texto e outro, como é o caso do Cri-Cri escrito em Março de 2010:

“Tenso.
Eu ouço grilos Hitchcock –
só de pensar fustiga o medo
aperto o peito e o ar
me foge engatinhando.

Eu ouço grilos Hitchcock –
em meu lugar
quem não ouviria?
Cândida e sufocante agonia
de fracassar.

Meus lençóis suam frio
a rede balança um lado a outro
uma quimera, melhor
pantera,
por baixo passa e mia.

Os grilos trintilam cri cri.

Eu ouço grilos Hitchcock”

O texto dá origem à canção Grilos, composta por Paulo, e que vem à tona ao ser gravada pela cantora Nathalia Ferro no seu EP Instante em 2013.

Dois anos depois da criação do seu blog pessoal, passa a integrar os Salvadores daqui, um blog composto por 04 amigos que estão na faculdade e decidem utilizar a paixão e aptidão para a escrita como ponto de encontro e troca, sendo eles: Jéssica Mendes, estudante de Medicina; Paulo César di Linhares (Paulão), estudante de Direito; Cláudio Roberto, estudante de Engenharia Elétrica, e Rômulo Coelho, estudante de Letras.

Beleza. E em qual parte da linha do tempo o escritor vira músico?

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Cada música é um pedaço de mim muito importante.

Na verdade, a veia musical já vem de berço (como vimos no começo do texto) e as hemácias se aglomeram bem mais e começam a produzir acordes quando ganha uma guitarra de presente por ter passado no vestibular.

Recebe o convite para a Pedeginja no ano de 2010 como quem escuta “me passa a farinha” e aceita. Assina a autoria das composições, assume a guitarra e conquista os vocais também.

A banda genuinamente maranhense lançou seu primeiro álbum no ano de 2013, intitulado Contos Cotidianos, que foi um sucesso de vendas em seu lançamento realizado no Cine Teatro Municipal, carinhosamente chamado “antigo Cine Roxy”.

Em 2015 a Pedeginja anuncia sua pausa realizando um show de despedida.

Porém, “para o bem de todos e orgulho da nação”, retoma as atividades em 2016, no Festival BR 135, tendo sua formação composta por Jéssica Gois, Paulão, Pedro Vinícius, Sandoval Filho, André Grolli, Romildo Bigorna, Paulo Vinícius e Davi.

Mas 2016 não foi um marco somente pela volta da Pedeginja.
No dia 05 de Maio, eis que surge:

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Paulinho, negros precisam tirar 11…

“Contrastando com a alegria de Contos Cotidianos, Faz escuro, mas eu canto revela um compositor mais maduro, concentrado em desnudar intimidades de fases delicadas de sua vida, com temas como a separação (Dia D, Penélope) e o próprio fazer artístico (Canto das Sereias, Música do Sereno).

Poeticamente, o disco se situa entre uma noite e outra, recurso do qual Paulão se utiliza para transitar desde sonoridades introspectivas (Grilos) até a euforia da sexta-feira boêmia (Faz teu nome).

O álbum remete aos seus contemporâneos da música popular, mas se destaca por uma escrita cuidadosa e menos atenta a maneirismos. Talvez por isso tenha conseguido dar vazão à musicalidade negra que acompanha Paulão, flertando com o soul, o samba, afoxé e até com o afrobeat, sem perder a naturalidade.”

Você pode conferir o álbum completo aqui:

No final do ano passado, o Sobre o Tatame fez uma série de 03 clipes com o seu trabalho autoral que pode ser conferido aqui: Sobre o Tatame Sessions #2 apresenta: a sonoridade de Paulão.

Os planos para 2017 giram em torno de perpetuar o Faz escuro, mas eu canto, novos estudos, composições, pesquisa de novas músicas e a busca pela ampliação do diálogo entre os diversos ambientes e artistas da cidade.
Paulão defende com rigor a necessidade de se enxergar a produção local de forma cada vez mais holística e, com isso, todos se perceberem como irmãos na música e misturarem as diversas linguagens.

Colaborando para isto, nesta sexta-feira, dia 03 de Fevereiro, acontece a Emanação Tropicarnaval, uma festança que promove o encontro do afrourbano Paulão com o multicolorido rítmico Totti, acompanhados por Hugo César (guitarra), Marlon Silva (baixo) e Thierry Castelli (bateria), no Odeon Sabor e Arte.

Chegando ao final, encerro com uma frase que ficou marcada (entre tantas) no meio da conversa e que joga a luz para o background de todos aqueles que nos brindam com a felicidade de nos embebedar com arte, que nos trazem alegria mesmo quando as costas doem:

O artista é uma fricção.

Sendo assim, valorize as fricções locais.

Aproveite a cidade!

Texto: Antonio Carlos (Caju)
Imagens: Laila Razzo